“O Brasil não é para principiantes”. A famosa frase de Tom Jobim voltada para explicar aos estrangeiros que realizar incursões no país requer conhecimento mais profundo e especializado pode ser claramente estendida para o mercado das apostas esportivas. As regras seguidas para definição de favoritos, por exemplo, deve levar em consideração que vão muito além dos números de desempenho apresentados pelas equipes.

Essa peculiaridade muitas vezes faz com que analistas indiquem o Campeonato Brasileiro como o mais equilibrado do mundo, com uma dúzia de candidatos ao título. Esse mantra que tantas vezes é repetido ganha, dessa maneira, ares de verdade para muitos, inclusive profissionais de apostas, que culpam esse suposto equilíbrio pelos fracassos na tentativa de antecipar os resultados e, consequentemente, os prejuízos com os palpites.

No entanto, tal impressão não tem base na realidade. Basta acompanhar os torneios nacionais a partir de 2003, quando a Série A ganhou a fórmula de pontos corridos que é repetida até hoje. Em nenhuma delas houve uma dezena de candidatos ao título. Isso só acontecia no modelo de fases classificatórias e decisão em partidas eliminatórias. Desde que o padrão europeu para regulamentos foi adotado, os torneios chegam ao seu quarto final com apenas dois ou três times com chances reais de conquista. Eventualmente, até com uma equipe disparada na frente aguardando apenas a confirmação matemática da conquista. É o mesmo padrão seguido nas principais ligas de futebol espalhadas pelo planeta Terra.

Instabilidade é a marca registrada do futebol nacional

O que realmente diferencia o futebol nacional do Europeu, por exemplo, é a instabilidade muito maior apresentada no país. Nem há necessidade de um estudo mais profundo para perceber isso. Basta ver as tabelas de classificação que indicam a forma das equipes. Nas ligas nacionais mais importantes do Velho Continente é possível ver sequências de cinco, oito, dez vitórias das equipes de ponta. No Brasil, isso é algo quase irrealizável.

motivos técnicos que podem justificar essa diferença significativa. O calendário certamente é um deles. Os torneios nacionais europeus, em sua grande maioria, têm seus compromissos espalhados por dez meses. No Brasil, as partidas se concentram em sete meses devido ao país ter a mais longa – e inútil – pré-temporada do mundo com a realização dos campeonatos estaduais.

Ainda que faça sentido, é pouco para explicar a abissal diferença das trajetórias de acompanhamento. Até porque, o calendário europeu tem ficado cada vez mais parecido com o nacional graças ao inchaço causado pelas copas nacionais e continentais. Por longos períodos, os clubes são obrigados a fazer duas partidas por semana, exatamente como acontece no Brasil.

Comportamento acaba sendo mais influente

Levando-se isso em consideração, é possível afirmar que o fator comportamental acaba sendo mais importante para explicar essa diferença. Imagine um profissional liberal que não tem salário e ganha a vida com o que recebe por seu trabalho dia a dia.

Ele precisa de uma determinada quantia para garantir seu sustento e de sua família. Se atingir essa meta nos dois primeiros dias da semana, não raramente vai deixar de atender chamadas a partir de quarta-feira e tirar alguns dias de folga.

Esse é um perfil que se adéqua majoritariamente ao trabalhador brasileiro – incluindo os jogadores de futebol. Em vez de aproveitar os três dias restantes para tentar faturar ainda mais, melhorar seu padrão de vida ou mesmo fazer uma poupança, aproveita o período para descansar, pois, como diz o ditado, “ninguém é de ferro”.

Não é o que fazem os jogadores europeus. Eles apresentam picos menores de oscilações mantendo um padrão tático e de disposição apresentada nas partidas que são muito parecidos. É raro ver um atleta de um time de ponta do Velho Continente deixar o campo dizendo que a derrota se deveu à “falta de atitude”, esse eufemismo criado para explicar o corpo mole que os jogadores fazem em alguns jogos e frequentemente é listado como motivo dos fracassos das equipes no Brasil.

Mudança de técnico é usada como arma para combater marasmo

Não é por acaso que ocorram mudanças frequentes de técnicos nos times brasileiros. Essa acomodação que pode ser causada por alguns bons resultados e, na sequência, reflete em uma sequência muito abaixo da média, acaba sendo combatida pelos dirigentes com a troca de técnico. É aquilo que um cartola gaúcho, o então presidente do Internacional Vitorio Piffer, apelidou de “fato novo” para dar motivação a profissionais extremamente bem remunerados que precisam de incentivo para cumprir sua obrigação.

Mudanças de técnico tendem a aumentar o rendimento em curto prazo!

Essa pratica é frequente no país e provoca picos de rendimento com a entrada de novos comandantes e baixas significativas quando os atletas desejam que o técnico seja trocado por terem simplesmente se cansado de suas decisões ou comportamento. Não por acaso o Brasileirão apresenta uma média próxima de uma troca de técnico a cada rodada.

Isso também acontece na Europa, ainda que de forma mais modesta. No Campeonato Alemão, por exemplo, dois técnicos de times de ponta foram derrubados a partir de movimentação dos atletas. A motivação dessas trocas, contudo, em nada se parecem com aquelas que provocam as quedas de treinadores no Brasil.

No Bayern de Munique, por exemplo, o italiano Carlo Ancelotti recebeu o bilhete azul por ser acusado pelos atletas de treinar pouco e não criar as alternativas táticas suficientes para a melhora do time.

No Borussia Dortmund, o holandês Peter Bosz caiu antes de completar um semestre no cargo por não punir – como os outros atletas consideravam que deveria ser feito – o atacante Pierre-Emerrick Aubameyang. O gabonês, que havia pedido para deixar o clube e não foi atendido, começou a se atrasar a treinos e faltar a reuniões. Ele e seu protetor acabaram sendo expulsos do time pelos demais jogadores, que exigiam um comportamento mais profissional de ambos. Algo inimaginável de acontecer no Brasil.

Atletas precisaram de motivação para decidir título mundial

Nenhum fato é mais emblemático para mostrar o estilo de comportamento adotado pelos atletas brasileiros que a preparação do Internacional, o mesmo do cartola do “fato novo”, para enfrentar o Barcelona no Campeonato Mundial Interclubes em 2006. Antes daquela que seria muito provavelmente a partida mais importante de suas carreiras os atletas tiveram uma palestra de um ‘motivador profissional’ para mantê-los focados em seus objetivos.

Se jogadores precisam desse tipo de preparação para um jogo que por si só dispensaria qualquer motivação extra, imagine então para encarar os times do interior no Campeonato Gaúcho ou mesmo superar as rodadas consecutivas do Brasileirão. Por isso o aspecto emocional acaba sendo mais importante no Brasil do que na grande maioria das ligas nacionais da Europa. Como emoções oscilam por natureza, isso se reflete nos resultados.

Por isso, olhar a tabela de classificação, médias de gols marcados dentro e fora de casa, jogadores machucados ou suspensos ou outras informações que são básicas para definir um palpite, no caso dos jogos no Brasil, são insuficientes. É preciso acompanhar mais detalhadamente o noticiário esportivo para perceber, mesmo nas entrelinhas das entrevistas, quão motivados os atletas estão e seu relacionamento com o técnico. Isso pode provocar resultados que são considerados surpreendentes, mas, na realidade, poderiam ter sido antecipados.

Fenômeno acaba sendo incentivado por cartolas e técnicos

Essa desmotivação não é criada apenas por jogadores. Ela é incentivada por técnicos e cartolas que decidem priorizar uma competição e acabam sinalizando para seus atletas que alguns jogos não têm qualquer importância. Isso, diga-se, é um fenômeno que também acontece na Europa quando jogos de copas nacionais são colocados em segundo plano.

No Brasil, todavia, é exacerbada atingindo, inclusive, o mais importante torneio de clubes do país. Na temporada 2017, por exemplo, em nome de preservar seus atletas para disputar jogos da Copa do Brasil e da Copa Libertadores, o Grêmio simplesmente abandonou o Brasileirão em algumas rodadas chegando colocar em campo equipes até mesmo sem os reservas imediatos do time principal. Por vezes, nem mesmo o treinador Renato Gaúcho aparecia para comandar o time C.

Acúmulo de jogos faz equipes deixarem torneios do lado. Verifique o calendário

A partir da temporada 2018, essa tendência deve ser ainda mais aguda. Com a Copa do Brasil pagando prêmios maiores, um número maior de clubes deve deixar de lado a Série A do Campeonato Brasileiro.

Quem não chora não mama

Outra característica especialíssima do Campeonato Brasileiro são as constantes reclamações sobre arbitragem. Elas começam logo ao final de um jogo perdido. Cartolas, jogadores e técnicos carregam nas críticas em relação a uma má atuação do árbitro e utilizam esse fato como único fator para explicar um eventual fracasso de seus times.

Isso é bem mais raro no futebol europeu, onde os árbitros são administrados de forma independente e não são ameaçados de ficar fora da escala e sem receber seu cachê em caso de reclamação dos clubes. No Brasil, contudo, o veto é amplamente praticado.

Por isso os juízes entram em campo ainda mais pressionados. Quando um time é prejudicado em uma rodada por decisões equivocadas, existe uma tendência a tentar compensar isso na próxima partida. Por isso há a reclamação geral. Ela não é feita para mudar o resultado consolidado, mas sim para influenciar no próximo jogo. E a prática mostra que tal fator não pode ser desprezado antes de fazer uma previsão para confrontos nacionais.